Perito revisando os danos de um sinistro com várias apólices de seguro

Quando ocorre um sinistro complexo, muitas pessoas pensam que o problema é que o seguro não cobre.

Na verdade, em muitos casos, o verdadeiro problema é outro: há várias apólices envolvidas e elas não estão bem coordenadas.

Seguro comunitário, apólice do proprietário, seguro do inquilino, seguro privado e Consórcio de Compensação de Seguros.

Quando vários atores intervêm, é comum que:

  • cada seguradora analisa apenas a sua parte
  • se gerem lacunas na cobertura
  • se apliquem subseguros que poderiam ter sido evitados
  • a indemnização final seja claramente inferior ao dano real

Nesses casos, compreender como as apólices se combinam é tão importante quanto o próprio sinistro.

A intervenção do Consórcio não elimina automaticamente a do seguro privado. Ambos podem cobrir itens diferentes e é fundamental que haja uma boa coordenação entre eles, conforme explicamos em

O que cobre o Consórcio de Compensação de Seguros e quando intervém.

Quando há várias apólices envolvidas no mesmo sinistro

É mais comum do que parece encontrar sinistros em que estão envolvidas duas ou mais apólices, por exemplo:

  • seguro comunitário + apólice privada
  • comunidade + local comercial
  • seguro privado + Consórcio de Compensação de Seguros
  • apólice do proprietário + apólice do inquilino

Nesses cenários, uma abordagem incorreta desde o início pode deixar partidas sem reclamação, mesmo que o dano seja real e esteja coberto.

Comunidade e apólice privativa: o cenário mais comum

Um dos casos mais frequentes é aquele em que um sinistro afeta:

  • elementos comuns
  • e a uma habitação ou local específico

Por exemplo:

  • infiltrações das áreas comuns para um andar inferior
  • incêndios que afetam a estrutura comunitária e o conteúdo privativo
  • inundações em garagens e arrecadações

Se não for analisado corretamente:

  • o que a comunidade cobre
  • o que a apólice individual cobre
  • e como ambas se coordenam

É frequente que sejam aplicados subsídios desnecessários ou que sejam rejeitadas partidas sem uma base técnica sólida.

Quando a apólice da comunidade compensa as lacunas das apólices privadas

Em alguns casos, a apólice privativa:

  • não existe
  • está desatualizada
  • não cobre determinadas rubricas

Embora não seja uma solução automática nem sempre aplicável, já vimos situações em que a apólice da comunidade permitiu cobrir danos relevantes, especialmente quando:

  • a origem do dano é comunitária
  • o continente do local ou habitação está incluído na apólice da comunidade
  • existe uma interpretação inicial errada do âmbito da cobertura

Uma revisão técnica adequada foi fundamental para evitar que o afetado ficasse sem indenização.

Seguro privado e Consórcio de Compensação de Seguros

Em sinistros extraordinários, como DANA, inundações extraordinárias ou eventos catastróficos, podem intervir dois atores distintos:

  • o seguro privado
  • Consórcio de Compensação de Seguros

Um erro muito comum é pensar que:

  • tudo é pago pelo Consórcio
  • ou que, se o Consórcio agir, o seguro privado deixa de intervir

Na verdade, ambos podem cobrir itens diferentes.

Não coordenar corretamente ambas as reclamações pode resultar em exclusões desnecessárias ou pagamentos incompletos.

O impacto direto no subseguro e a regra proporcional

Quando há várias apólices envolvidas, é comum encontrar:

  • capitais que não são somados corretamente
  • tolerâncias de subseguro não aplicadas
  • regras proporcionais mal calculadas

Em alguns casos, a combinação correta de apólices permitiu eliminar ou reduzir significativamente a aplicação da regra proporcional, melhorando a indenização final.

Este ponto é especialmente relevante quando existem discrepâncias entre os valores de reconstrução ou capitais segurados, como explicamos em

Subseguro e regra proporcional: como afetam a sua indemnização.

Apólice do proprietário e apólice do inquilino: coordenação, não duplicação

Outro cenário muito comum é aquele em que a apólice do proprietário e a apólice do inquilino intervêm no mesmo sinistro.

É importante esclarecer um ponto fundamental:

Não se cobra duas vezes pelo mesmo dano, mas pode haver duas apólices cobrindo partes diferentes do risco ou até mesmo duas apólices cobrindo o mesmo dano, como poderia ser o caso de um porão ou um negócio, que está coberto pela apólice do proprietário ou inquilino e também pela apólice da comunidade, que muitas vezes cobre os espaços comuns, jardins e porões.

Por exemplo:

  • o proprietário costuma segurar o imóvel
  • o inquilino costuma fazer um seguro para o conteúdo, melhorias ou responsabilidade
  • A comunidade de proprietários tem uma apólice que cobre todo o edifício e, além disso, o proprietário da habitação ou inquilino tem uma apólice própria.

Quando ocorre um sinistro, é frequente que:

  • cada perito analise apenas a sua apólice
  • não exista uma visão conjunta dos danos
  • se gerem sobreposições ou lacunas sem cobertura

Em alguns casos, quando o inquilino se compromete a realizar as reparações, pode haver uma cessão de direitos, o que permite articular a reclamação de forma mais eficiente se for bem apresentada desde o início.

O verdadeiro problema: falta de coordenação entre peritos

Em sinistros que envolvem várias apólices, nem sempre é o mesmo perito que atua, o que gera situações como:

  • critérios distintos de avaliação
  • diferentes módulos de reconstrução
  • aplicações desiguais de subseguro
  • capitais não otimizados

Vimos casos em que:

  • para um mesmo risco, existiam dois valores de reconstrução diferentes
  • a compensação de capitais não era aplicada corretamente
  • eram aceites subsídios que poderiam ter sido reduzidos ou evitados

Em muitos desses cenários, a comunicação entre os peritos não tem sido fluida.

Concorrência de apólices em estabelecimentos comerciais na DANA

Na DANA, tivemos muitos casos de indenização que foram drasticamente reduzidos pela aplicação do subseguro, mas, como tínhamos uma segunda apólice que se aplicava ao mesmo local comercial ou prédio, tivemos a sorte de poder aplicar ambas as apólices, somar os valores do continente e, com a segunda apólice, revogar o subseguro.

Em alguns casos, esse subseguro era superior a 50%, pelo que muitas indemnizações foram consideravelmente aumentadas. Normalmente, nestes casos, a dificuldade reside em determinar qual é a apólice que paga primeiro, qual é a secundária e coordenar os dois peritos, caso haja dois peritos no evento.

Às vezes, com o excesso de conteúdo, poderíamos ter soluções mais avançadas, como compensar capitais de conteúdo; o que poderia aumentar os limites ou até mesmo revogar subseguros também.

O perito da parte como elemento de ligação

Em sinistros com várias apólices, o perito da parte atua como elo técnico entre as seguradoras, permitindo:

  • coordenar os diferentes peritos
  • alinhar critérios de avaliação
  • evitar contradições técnicas
  • maximizar o uso correto dos capitais segurados

Não se trata de forçar coberturas, mas sim de:

  • ordenar a reclamação
  • garantir a coerência técnica
  • e evitar que erros de coordenação reduzam a indenização final

Em muitos casos, esse diálogo permitiu aplicar corretamente a compensação de capitais e corrigir desequilíbrios relevantes entre políticas, conforme explicamos em

quando a compensação de capitais pode melhorar uma indemnização.

Conclusão

Quando há várias apólices envolvidas, o sinistro deixa de ser apenas um problema de danos e passa a ser um problema de coordenação técnica.

Entender como as coberturas se combinam, o que corresponde a cada apólice e em que ordem reclamar é fundamental para não perder a indenização no caminho.

A maioria das indemnizações mal pagas que analisamos não falham por falta de cobertura, mas por erros de coordenação.

O seu sinistro envolve mais de uma apólice?

Analisamos reclamações que envolvem seguros comunitários, apólices privadas e o Consórcio de Compensação de Seguros.

Quando há várias apólices, uma má coordenação pode custar milhares de euros.

Uma correta, marcar a diferença.

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